A crônica desta semana parte de uma situação aparentemente banal — um homem de sunga branca — para discutir algo muito mais interessante: o território ambíguo entre aquilo que vemos e aquilo que imaginamos. O branco, tradicionalmente associado à pureza e à discrição, torna-se justamente o contrário quando aplicado a uma peça que pode revelar mais do que pretendia. A partir daí, o olhar do outro transforma uma escolha aparentemente inocente em uma espécie de mensagem subentendida, ainda que talvez nenhuma mensagem tenha sido enviada.
Mas há uma pergunta que atravessa o texto: quem está, de fato, produzindo o sentido — quem veste ou quem olha? A sunga pode ser apenas uma sunga. O homem pode simplesmente gostar de branco, sentir-se confortável com o próprio corpo ou não ter qualquer intenção de provocar. Ainda assim, o observador preenche as lacunas, interpreta volumes, imagina intenções e constrói uma narrativa a partir de poucos centímetros de tecido. Talvez o desejo tenha menos a ver com aquilo que é mostrado do que com a liberdade que damos à nossa própria imaginação.
Ao mesmo tempo, a crônica tenta olhar para o outro lado da cena. Nem todo corpo que chama atenção escolheu chamar atenção. Para alguns homens, aquilo que pode parecer provocação para quem observa é apenas uma característica corporal com a qual aprenderam a conviver. Vestir-se, sentar, caminhar ou praticar esportes pode envolver uma preocupação constante com olhares que transformam o corpo alheio em espetáculo. Entre a suposta exibição e o simples direito de existir sem ser interpretado, há uma zona muito mais complexa do que a sunga branca deixa entrever.
No fim, talvez seja justamente o quase que nos desestabilize: aquilo que não se entrega inteiramente, mas também não permanece completamente escondido. É nesse intervalo que o olhar trabalha, inventa, deseja e, às vezes, exagera. A sunga branca talvez não tenha nenhuma intenção especial. Quem sabe a intenção esteja toda do lado de quem olha. E talvez essa seja a pequena provocação desta crônica: antes de perguntar o que determinado corpo está querendo dizer, vale perguntar o que nós mesmos estamos tão interessados em enxergar.
Um abraço ─ e até a próxima
Will Assunção
