Como cronista da modernidade, escrevo como quem atravessa a cidade com a neurótica convicção de que tudo — absolutamente tudo — pode virar material literário, inclusive o medo constante de não estar prestando atenção o suficiente. Meu estilo oscila entre o formal e o popular não por rebeldia estética, mas porque minha vida também oscila entre o desejo de parecer sofisticado e a constatação de que quase sempre estou com a camisa amassada. Nas minhas crônicas, temas relevantes se misturam ao caos do cotidiano, criando textos híbridos em que o leitor entra desavisado e, quando percebe, já está emocionalmente envolvido ou levemente confuso, o que no fundo dá quase na mesma.

O humor, claro, está sempre ali — não aquele humor expansivo, de plateia aplaudindo, mas o tipo discreto, meio intelectualizado, autodepreciativo que surge num comentário enviesado, numa ironia inadvertida ou numa provocação que talvez tenha passado do ponto. Para explicar assuntos complexos, recorro às metáforas: não porque seja poético, mas porque a realidade, sem disfarces, às vezes é insuportavelmente literal. Então transformo conceitos áridos em imagens simples, emprestadas do cotidiano, como se estivesse tentando convencer o universo de que ele próprio é mais compreensível do que costuma parecer.

Minhas crônicas gostam de contar histórias — mesmo quando decidem, teimosamente, falar de ciência. Muitas começam com uma cena trivial, um dilema existencial menor ou uma pergunta que deveria ser inofensiva, mas que acaba provocando reflexões necessárias para o tempo em que vivemos. Apesar de dependerem só da palavra escrita, carregam um ritmo quase visual, como se títulos piscassem, frases respirassem e parágrafos tentassem, quase sempre com sucesso, parecer mais organizados do que meus pensamentos.

No fim das contas, o que move esses textos é a busca obsessiva por aquele detalhe que ninguém viu, mas que, uma vez apontado, provoca no leitor a sensação encantadora — e ligeiramente perturbadora — de descoberta: “Como nunca pensei nisso antes?” É assim, entre neuroses, metáforas e um certo charme acidental, que transformo a modernidade em pauta para crônica.

Will Assunção é aquele tipo de sujeito que acredita que o jornalismo — assim como a vida — é uma combinação improvável de neuroses, boas histórias e uma dose moderada de caos. Especialista em comunicação, formado em Letras e atualmente afundado até as orelhas em um mestrado no qual se dedica ao estudo de literatura, ele tenta conciliar a teoria dos textos com o absurdo do cotidiano. Fundador e repórter do projeto de jornalismo WA, fotógrafo por convicção estética e cronista da assuntasó!, Will coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que, no fim das contas, nada faz tanto sentido quanto observar o mundo, registrar tudo e torcer para que o universo não esteja rindo da gente pelas costas.