A primeira vez que evocamos Deus foi quando tentávamos explicar algo que ainda não entendíamos — o trovão, a morte, o nascimento, as estações, a doença. Nós, então, recorremos a narrativas sagradas para dar sentido ao mundo, reduzir a angústia e organizar as experiências da vida.
No início, quando ainda não havíamos dado forma ao divino, a humanidade não concebeu um único conceito de Deus, no sentido de uma ideia clara, abstrata e universal como a que temos hoje. O que houve foi um processo lento, ao longo de dezenas de milhares de anos, em que a noção do sagrado foi se formando. Mesmo assim, a antropologia permite apontar o quão antiga é essa ideia.
Estamos falando do Paleolítico Superior, entre 30 e 40 mil anos atrás, quando o animismo vigorou como percepção do mundo. Esse conceito define o divino como força vital ou espírito presente em todas as coisas, sem uma separação clara entre o “natural” e o “sobrenatural”. A ideia de um Deus único, pessoal ou criador ainda não existia. O sagrado era difuso, imanente ao mundo.
A visão de Deus de Spinoza — Deus sive Natura (“Deus, isto é, a Natureza”) — surge de forma sistematizada apenas no século 17, mais precisamente com a obra Ética, publicada postumamente em 1677. Desde então, esse conceito tem atraído muita gente.
Hoje, empregamos essa visão às coisas mais simples ou sublimes que nos cercam: um acorde do saxofone de Stan Getz, o barulho da chuva no telhado, um café coado no meio da tarde. Ou você teria coragem de negar que Deus também se manifesta em todas essas experiências?
Na crônica desta semana, mergulharemos no conceito de Deus como imanência — o princípio segundo o qual a realidade da sua existência está dentro da própria realidade em que vivemos, e não fora dela. Espero que esta seja uma leitura inspiradora.
Um abraço,
Will Assunção
