Você arriscaria dizer qual é a imagem de Deus? E do que ele é feito? De música, oração e fé? Ou, simplesmente, de sorrisos e lágrimas? Mas, afinal, Ele existe? Então, o que é Deus, mesmo?

Certa vez, Elis Regina disse que Milton Nascimento é a voz de Deus entre nós. O epíteto se popularizou ao descrever o timbre único e emocionante do cantor, capaz de tocar profundamente as nossas almas, transcendendo barreiras com sua expressividade e poesia — um símbolo de identidade, fé e resistência na música brasileira. De lá para cá, adotei a ideia e toda vez que ouço a voz de Milton digo a mim mesmo que é Deus se manifestando com poesia.

Ainda seguindo o mesmo fio condutor desse pensamento, gosto de ver em Gil um orixá, que permeia tradições por meio de sua obra, celebrando divindades como Xangô e Oxum, incorporando a espiritualidade a sua música e a sua visão de mundo.
  • Qual é o meu Deus?
O meu Deus se manifesta sempre para quem ama a vida — mesmo com todas as suas contradições —; está nos filmes de Woody Allen e nos poemas de Carlos Drummond de Andrade; olha a política com respeito e aversão. Esse Deus é cada vez mais frequente em quem não frequenta igreja para se dizer religioso e não é ateu o suficiente para exterminar rituais, crenças e crônicas de Rubem Braga.

É gente, como eu, que fala de alguma forma em Deus sem precisar personificá-lo ou moldá-lo à própria imagem, numa tentativa de blindá-lo contra quem faz da religião um abismo de hipocrisia e cinismo. O meu Deus está nas visitas inesperadas, nas canções de Milton que ecoam quando precisamos acalmar o espírito e, principalmente, nos banhos de cachoeira nas tardes de verão.

Em outras palavras, “eu só acreditaria em um deus que soubesse dançar”. Nietzsche ─ o filósofo da suspeita ─ traduz em aforismo o que a leveza na afirmação da vida, como estado de espírito, revela sobre a minha relação com o divino. O Deus que habita em mim celebra a vida, não a reprime. Recuso ideias, deuses ou morais que neguem a vida, o corpo, a alegria e a criação.

Deus é a expressão poética da existência de cada um de nós. É a calmaria que inunda o corpo ao receber a brisa do mar, na cadência de versos de Vinícius de Moraes musicados por Tom Jobim, enquanto as ondas se quebram, distantes, no horizonte. Eu consigo vê-Lo no dia a dia de quem aceita ter fé e ver coragem no amor.

É possível que, assim como Einstein, eu acredite no deus de Spinoza: uma única substância infinita, que existe por si mesma. Deus é tudo o que existe — pessoas, ideias, corpos, estrelas — e não age por vontade, propósito ou moral; age por necessidade. Não há separação entre criador e criação: o mundo não foi criado por Deus; o mundo é Deus em manifestação. Milagres, no sentido religioso, não existem — são apenas fenômenos que ainda não compreendemos pelas leis da Natureza. É um golpe duro para você? Então, liberte-se.

E digo mais: um agnóstico pode conhecer mais o divino do que alguém apegado a tradições religiosas. Até porque ser ateu pode soar menos ofensivo do que ser religioso — sobretudo quando este se veste de paladino da moral e dos bons costumes e insiste em deformar a imagem de Deus.

Qual é o rosto de Deus? Com certeza, Ele se parece com muitas experiências humanas: da felicidade de um abraço apertado após um reencontro à bondade que sobreviveu no horror do Holocausto nazista. Deus está presente na vida daqueles que aceitam o pôr do sol como um ato de renovação das esperanças e acreditam na transformação ao longo do tempo. Deus foi, é e será sempre Aquele que mais se parecer com você.