Há quem desse uma vida — se tivesse duas — para descobrir o verdadeiro significado de “Reconvexo”, composição de Caetano Veloso eternizada na voz de sua irmã, Maria Bethânia.
Repleta de uma cadência contagiante e de elementos metafísicos e poéticos, a canção parece brotar de algum terreiro de Candomblé do Recôncavo Baiano. É difícil não se deixar levar pelo gingado e pela mistura de ritmos presentes na obra do filho da eterna matriarca baiana, Dona Canô.
Para interpretar a letra de “Reconvexo”, é necessário compreender minimamente a trajetória da família Veloso. Os filhos de Dona Canô viveram parte da vida na chamada “Roma Negra”, apelido dado a Salvador pela célebre ialorixá Mãe Aninha, do Ilê Axé Opô Afonjá. A capital baiana é considerada a cidade com a maior população negra fora da África, e essa herança cultural atravessa profundamente a obra de Caetano.
A música faz referências a diversas personalidades da arte e da cultura. Entre elas, o francês Henri Salvador, cantor, compositor e guitarrista de jazz que viveu durante um período no Rio de Janeiro e é apontado por muitos como um dos precursores da Bossa Nova. A canção também menciona Andy Warhol, ícone da pop art e diretor da banda The Velvet Underground, além de figuras populares, como Bobô, destaque da seleção brasileira na década de 1980.
No entanto, o verso mais enigmático da composição talvez seja: “Sou Gitá Gogóia, seu olho me olha, mas não me pode alcançar”. Desde que a música foi lançada, inúmeras interpretações surgiram para tentar explicar quem — ou o que — seria, afinal, Gitá Gogóia.
Há quem diga que, depois de muito rebucetório, o próprio Caetano esclareceu que “Gitá Gogóia” seria uma fusão entre “Gita”, clássico de Raul Seixas, e “Fruta Gogóia”, canção gravada por Gal Costa no histórico álbum Fa-Tal: Gal a Todo Vapor.
“Gita”, por sua vez, possivelmente remete ao Bhagavad Gita, trecho do épico hindu Mahabharata e um dos textos sagrados mais populares do hinduísmo, no qual Krishna expõe princípios centrais da tradição espiritual indiana.
Entender Caetano nunca foi tarefa simples. Li certa vez que o verdadeiro significado de “Gitá Gogóia” talvez não esteja em descobrir quem ou o que ela é, mas em identificar o momento exato em que o artista de Santo Amaro alcançou uma espécie de apoteose poética — dessas que não se explicam por completo, apenas se sentem.
