Do alto da torre da igreja mais antiga de Jussiape, um crucifixo de ferro fundido se projeta em direção ao céu como se buscasse reafirmar, a cada segundo, sua sacralidade e se aproximar de Deus. O maior símbolo da fé cristã se impunha até o início do novo milênio como o ponto mais alto da antiga praça, onde a devoção parecia ter sido erguida como resposta ao que nunca conseguimos explicar completamente.
O chão, irregular, de pedras socadas na terra crua, guardava marcas invisíveis, como vestígios de episódios que a memória coletiva preferiu esquecer. Havia ali um contraste incômodo: a verticalidade sagrada da torre, com traços que lembravam um gótico improvisado, e o peso silencioso de um passado atravessado por tragédias humanas, sangue e sombras que resistiam ao esquecimento.
Ao longo dos séculos, aquele espaço testemunhou mais do que procissões e promessas. Assassinatos abafados, conflitos com derramamentos de sangue que escorreram para além dos registros, histórias de figuras descritas como a própria encarnação do mal, além da herança histórica dilacerante da escravidão de negros arrancados de diferentes regiões da África. Tudo parecia ter sido soterrado por camadas de uma aparente normalidade. Ou pelo menos era o que se acreditava.
Mas em uma sexta-feira, sob um calor que não cedia nem com a chegada do fim da tarde, uma sensação carregada pelo vento deu sinais de que a presença do mal nunca desaparece por completo. E eu estava lá quando as primeiras viaturas da Polícia Civil surgiram, rasgando o sossego da cidade com uma urgência meticulosamente contida. O tipo de movimentação que não precisa de sirenes para anunciar gravidade. Elas avançaram pela rua estreita e estacionaram em pontos estratégicos da praça onde se ergue a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Saúde, exatamente em frente ao antigo Hotel Bonfim.
Em cidades como Jussiape, onde o tempo costumava se mover devagar, qualquer ruptura carrega significado. E aquela, eu percebi de imediato, não era apenas mais uma ocorrência policial. Era uma resposta a algo que exigia presença — e controle.
Tudo começou naquele mesmo ano, uma coincidência que, para muitos, jamais deixou de soar como presságio. Era a virada simbólica do milênio, o ano de 2000, quando os primeiros relatos começaram surgir nas zonas rurais ao redor de Jussiape. Falava-se de uma figura horripilante que aparecia e desaparecia sorrateiramente, sem deixar vestígios, sempre à margem dos caminhos mais afastados, onde a vigilância era precária e o silêncio, profundo.
Testemunhas descreviam uma presença que causava arrepios e observava à distância, estudando rotinas, movimentos, como se estivesse cercando suas presas. Em algumas comunidades rurais, a resposta surgiu quase como um ritual medieval, estruturado pelo medo. Homens passaram a se armar com espingardas e ferramentas cortantes — foices, facões, enxadas —, além de bíblias abertas e orações em família como proteção.
Após o pôr do sol, quando a luz cedia lugar a sombras mais densas, a vigilância assumia um caráter quase litúrgico. Não se tratava apenas de defesa física, mas de um enfrentamento espiritual, como se o inimigo, qualquer que fosse sua natureza, exigisse tanto aço quanto fé para ser contido. Entre o medo e o desespero, muitos relatos asseguravam que, no exato momento em que a lua atravessava a copa das árvores e projetava sombras tortuosas sobre a vegetação, a figura amorfa simplesmente exalava, sem ruído, sem rastro, sem explicação.
A ausência de respostas abriu espaço para hipóteses cada vez mais perturbadoras. Não havia consenso, apenas especulação. Alguns falavam em um feiticeiro antigo, alguém que dominava práticas esquecidas; outros sugeriam um criminoso em fuga, estrategista o suficiente para manipular o medo coletivo; havia ainda os que ousavam dizer que aquilo era a encarnação do Maligno.
Com o passar dos dias, o temor deixou de ser pontual e se espalhou pela cidade, assumindo contornos místicos. A investigação da polícia trouxe dados fragmentados, mas suficientes para intensificar o pânico. As vítimas espalhadas país afora apresentavam sinais que não se encaixavam em nenhum padrão convencional. Havia indícios de que o predador não apenas atacava as vítimas, mas violava seus corpos para beber o sangue.
Foi nesse ponto que a narrativa coletiva deu um salto: da suspeita ao arquétipo. A criatura passou a ser definida por um nome carregado de séculos de simbologia: vampiro. Não como metáfora, mas como explicação materialista para o inexplicável. Retratos falados começaram a circular pela cidade, fixados em postes, escolas e repartições públicas, como se a repetição da imagem pudesse tornar o fenômeno mais compreensível — ou capturável.
A presença policial se intensificou, adotando padrões de busca que lembravam mais operações estratégicas do que investigações rotineiras. E, inevitavelmente, o caso ultrapassou os limites de Jussiape, atraindo a atenção da imprensa. O que antes era um conjunto de relatos dispersos agora assumia a forma de um enigma público, um quebra-cabeça em que cada peça parecia não reduzir o mistério.
Entre os relatos que circulavam, um em particular se destacava pela precisão perturbadora com que era narrado. O predador notívago não apenas observava, mas também se aproximava de suas possíveis vítimas. Crianças e idosas, em áreas rurais isoladas, teriam sido seus alvos preferenciais, e como alguns dos critérios por trás da escolha, estava a vulnerabilidade. Matar crianças e idosos seria muito mais fácil do que fazer de um adulto, com força e sagacidade, uma vítima fatal.
A investigação, até então truncada, começou a adquirir contornos mais definidos quando a polícia identificou um nome, que surgiu primeiro como hipótese, depois como confirmação operacional: Benedito Gomes Rodrigues. Foragido. Um homem que, segundo registros oficiais, havia escapado do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha sob circunstâncias pouco esclarecidas. A revelação não encerrava o mistério, mas adicionava uma nova camada a ele, como se a explicação racional fosse apenas outra face de algo mais tenebroso.
É preciso lembrar o contexto. Em uma época em que a tecnologia se restringia a telefonemas de linhas fixas e correspondências enviadas pelos Correios, a informação não circulava, apenas se arrastava. Jussiape e outras cidades da Chapada Diamantina viviam à margem do fluxo contínuo de notícias, visitadas pela imprensa apenas quando algo suficientemente extraordinário rompia a barreira do silêncio. E um suposto vampiro à solta, inevitavelmente, atendia a esse critério.
Ainda assim, mesmo com a atenção eventual dos meios de comunicação, a verificação dos fatos permanecia imprecisa, quase impossível. Cada relato carregava distorções, acréscimos, omissões. E, nessa atmosfera em que a verdade disputava espaço com o medo, distinguir realidade de construção coletiva tornou-se parte essencial — e talvez insolúvel — do próprio enigma.
O caso ultrapassou as fronteiras da Chapada quando alcançou o alcance nacional do Linha Direta, o extinto programa da TV Globo apresentado pelo jornalista Marcelo Rezende. Exibido nas noites de quinta-feira, o programa operava quase como um tribunal simbólico da memória criminal brasileira, reconstruindo crimes hediondos com uma linguagem que mesclava dramatização e investigação. Quando o episódio foi ao ar, Jussiape deixou de ser apenas um ponto isolado no mapa para se tornar possível cenário de um mistério transmitido em rede nacional. Um caso que agora precisava fazer sentido não apenas para seus moradores, mas para milhões de espectadores.
Naquela noite, a cidade pareceu suspender a própria respiração. Casas tiveram suas rotinas alinhadas em um mesmo gesto silencioso. Em frente às televisões, famílias inteiras acompanharam a reconstituição das cenas, cada detalhe ecoando como uma confirmação inquietante do que antes era apenas rumor.
As imagens, editadas com precisão quase cirúrgica, davam forma ao medo coletivo. Um vampiro que deixava de habitar apenas os relatos para assumir contornos visíveis, quase tangíveis. E, enquanto o programa avançava, o silêncio se tornava mais denso, como se cada morador tentasse reconhecer na tela a figura pavorosa que passou a dominar o imaginário coletivo da população.
Na esteira da repercussão, versões divergentes começaram a surgir com a mesma velocidade com que o medo se espalhava. Cada uma delas acrescentando uma nova camada de inquietação à figura de Benedito. Uma das narrativas afirmava que, ainda criança, ele já demonstrava comportamentos incomuns, alimentando-se do sangue das galinhas criadas por sua mãe no quintal de casa.
Outra, mais sombria, sugeria uma origem ainda mais perturbadora: órfão muito cedo, teria sido entregue pelo próprio pai, descrito como alcoólatra e portador de transtornos mentais, a forças ocultas. Nenhuma dessas versões se sustentava em provas concretas, mas, naquele momento, a ausência de evidência parecia apenas ceder espaço para o imaginário.
Apesar da intensidade dos relatos e da pressão crescente da opinião pública, a polícia manteve uma posição cautelosa. Não havia ainda comprovação de que Benedito tivesse, de fato, passado por Jussiape, tampouco evidências materiais que o colocassem diretamente na cena dos acontecimentos. Sua idade permanecia imprecisa; estimava-se que já ultrapassasse os 60 anos — e seu histórico o situava como foragido do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha, em São Paulo, desde 1991. Esse dado, ao invés de encerrar a questão, introduzia uma variável desconcertante: se era ele, como teria percorrido tal distância sem deixar rastros? E, se não era, por que todas as narrativas insistiam em convergir para o mesmo nome?
Portador de encefalopatia, condição neurológica associada à deficiência de oxigenação cerebral, o predador passou a ser descrito, nos relatórios policiais, como alguém capaz de ultrapassar os limites do comportamento saudável. Segundo esses registros, havia indícios de que ele consumia o sangue de suas vítimas, um dado que, isoladamente, já seria suficiente para provocar inquietação, mas que, naquele contexto, alimentava uma narrativa muito maior.
A informação circulava com o peso de um documento oficial, mas também com a distorção inevitável de tudo o que é repetido sob tensão. E, entre o que estava escrito e o que era contado, formava-se uma zona cinzenta onde o fato e o mito pareciam indistinguíveis.
A figura que emergia desses relatos era a de um homem que atravessava o país como uma sombra em movimento. Apontado como um mestre dos disfarces, Benedito teria adotado múltiplas identidades, confundindo rastros e alimentando a percepção de que podia surgir e desaparecer com uma facilidade quase sobrenatural. Goiás, Amazonas, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo apareciam como pontos dispersos de uma mesma trajetória. O percurso desafiava a lógica investigativa tradicional.
Para muitos, essa mobilidade reforçava a crença de que não se tratava apenas de um foragido, mas de algo que operava à margem da compreensão comum, como se a própria ideia de presença física não fosse suficiente para contê-lo. Era Benedito uma força disforme do além?
O que se sabe — ou aquilo que resiste à verificação — é que Benedito chegou a ser detido em 1967, em circunstâncias que já sugeriam um comportamento fora dos padrões convencionais. Dois anos depois, foi internado, deslocado do sistema penal para uma instituição onde razão e desvio se confundem em diagnósticos e contenções.
Mas foi em 27 de junho de 1991 que a narrativa assumiu sua forma mais inquietante: a fuga. Como alguém poderia ter escapado de um local protegido por vigilância ininterrupta? Como atravessar paredes e grades, driblar corredores vigiados e passar despercebido por seguranças atentos em um dos espaços mais bem resguardados do estado? Não houve registro de arrombamento, tampouco sinais de confronto ou falhas aparentes nos protocolos de segurança.
Ainda assim, restou apenas o vazio. Uma ausência que não se explicava por meios racionais. Para alguns, tratava-se de uma falha humana cuidadosamente encoberta; para outros, mais inclinados ao insólito, aquele episódio parecia desafiar as próprias leis da matéria, como se a fuga não tivesse sido um ato, mas um desaparecimento.
Sem registros claros, sem testemunhas consistentes, sem rastros que pudessem ser seguidos com precisão. A partir desse ponto, Benedito deixou de ser apenas um homem procurado para se tornar uma ausência documentada, um vazio que nem mesmo os mecanismos formais de investigação conseguiram preencher.
Décadas se passaram, e o silêncio em torno de seu paradeiro não enfraqueceu a história, mas apenas a consolidou. O mistério persistiu, atravessando anos como uma hipótese que se recusa a ser descartada. A impossibilidade de localizar, confirmar ou encerrar o caso acabou funcionando como elemento de reforço para algo maior que o próprio indivíduo.
Em Jussiape e nas regiões vizinhas, a pergunta nunca deixou de ecoar: e se não fosse apenas um foragido? A ausência de respostas concretas abriu espaço para uma conclusão que, embora improvável, jamais foi totalmente rejeitada: a de que Benedito não desapareceu. Apenas continuou existindo à margem, como o vampiro que, talvez, um dia tenha cruzado a Chapada Diamantina.
