A aparição de “demônios” com pouco mais de meio metro, de pele manchada como a de um sapo negro e olhos amarelos brilhantes e redondos, já vinha sendo contada há décadas em regiões do interior da Bahia. Mas, em Jussiape, aquela história parecia apenas mais uma invenção para assustar crianças durante a Quaresma — até a noite em que o jogo terminou tarde demais.
O sol já havia se escondido atrás das serras quando a bola escapou para fora do campinho. Um dos rapazes correu para buscá-la e foi o primeiro a ver três pequenas figuras saltando o muro baixo, com movimentos bruscos e desarticulados. Não corriam: sacudiam-se, como se seus ossos, encobertos por uma espécie de couraça áspera, não obedecessem a nenhuma lógica. Ao serem notadas, pararam por alguns segundos. E então olharam de volta, exalando um cheiro forte de carne podre. Seus olhos, redondos e amarelos, não piscavam, apenas fixavam, brilhando de forma incandescente.
Os gritos começaram. Alguns correram. Outros ficaram paralisados. Um dos jovens, tomado por uma coragem nervosa, chegou a se aproximar para vê-las melhor, mas desistiu em seguida, alertando os demais aos gritos. As criaturas desapareceram como se tivessem encontrado um buraco no chão, entre os entulhos do local. Ainda assim, um som baixo e úmido escapou delas — algo entre um coaxar e um choro infantil.
Depois disso, ninguém mais jogou naquele campo durante aquela semana. O mato pareceu crescer rápido demais, como se a terra quisesse engolir o lugar. O muro caiu parcialmente, mas ninguém ousou reconstruí-lo. Às vezes, moradores juram ouvir, ao entardecer, sons vindos dali — pequenos saltos, arranhões leves e um murmúrio baixo, úmido, repetitivo. Há quem diga que, durante aqueles dias, era possível ver três pares de olhos amarelos brilhando na escuridão.
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