Desde que o Twitter passou a nomear tudo, inclusive o que a gente não pretende assumir, ficou impossível não pensar sobre os limites das “brincadeiras gostosas”. Nesse meio tempo, As It Was virou trilha de uma nostalgia precoce, e eu comecei a achar que a gente sente mais do que admite. A Geração Z, então, percebeu que amizade e desejo podem ocupar o mesmo feed na timeline das nossas vidas.

Mas será mesmo que esses gestos difusos, que beiram a inocência, têm alguma conotação sexual? O que dá para dizer é que essas interações são carregadas de ambiguidade afetiva e física, no limite entre o lúdico e o íntimo. Afinal, elas acabam se tornando uma espécie de zona cinzenta, em que o contato — físico ou simbólico — pode ser justificado como “zoeira”, mas também produz prazer, curiosidade ou uma tensão que nem sempre é nomeada.

Essas brincadeiras geram conforto, proximidade e permissão para atravessar limites que, em outro contexto, seriam vistos como inadequados. Funcionam como um dispositivo de proteção: permitem experimentar afeto, toque e até desejo sem que isso ameace diretamente a identidade heterossexual. É como se o rótulo de “brincadeira” servisse de álibi para sustentar que tudo pode ser dito ou feito, desde que exista a possibilidade de recuo: “é só zoação, cara!”.

Ainda assim, elas revelam uma contradição moderna: numa cultura que estimula a exposição, o diálogo sobre sentimentos e a flexibilização de papéis — muito influenciada por narrativas como as de Sex Education e por debates amplificados nas redes sociais —, ainda persiste a dificuldade de assumir certas formas de intimidade masculina fora do enquadramento da amizade heteronormativa.

Por isso, as “brincadeiras gostosas” podem ser entendidas como um território de negociação: entre o desejo latente e a negação sistemática, entre a proximidade e a defesa, entre o que se sente e o que se permite dizer. Não são apenas leves, mas são também reveladoras, porque expõem exatamente onde começam — e até onde podem ir — esses limites.

É cada vez mais comum presenciar cenas que já se tornaram rotineiras entre os mais jovens: amigos dormindo de conchinha, massagens entre colegas durante a aula, abraços prolongados que beiram o aconchego. Talvez sejam esses gestos afetuosos o ponto de partida para as “brincadeiras gostosas”.

Aquela “conferida no amigão do amigo” ou uma “sarrada parceira” acompanhada por uma proposta indecente dita no ouvido pode ser apenas o começo das irresistíveis “brincadeiras gostosas”. Isso quando não há histórico dessas brincadeiras no chat do Insta ─ território íntimo onde rolam soltas piadas e interações de todo tipo: de memes de “brotheragem” a episódios que retratam a rotina na intimidade, como amigos tomando banho juntos.

Aquela “conferida no amigão do amigo” ou uma “sarrada parceira”, acompanhada de uma proposta indecente sussurrada ao ouvido, pode ser apenas um sinal de que nós não resistimos às “brincadeiras gostosas”. Isso quando não há histórico dessas interações no chat do Instagram — território íntimo onde circulam livremente piadas e trocas de todo tipo: de memes de “brotheragem” a episódios roteirizados do cotidiano mais íntimo, como amigos tomando banho juntos.

Mas aí fica a pergunta: quando passamos das “brincadeiras gostosas” para a “brotheragem”? A virada acontece quando já não dá mais para fingir que se trata apenas de uma brincadeira, mesmo que ninguém tenha coragem de admitir.

As “brincadeiras gostosas” ainda se sustentam na ambiguidade, pois sempre há a possibilidade de recuo, de rir e dizer: “foi só zoeira”. Já a “brotheragem” começa quando essa ambiguidade deixa de convencer, seja pela repetição, numa intenção com cumplicidade silenciosa, ou por um acordo implícito de que aquilo não é mais apenas piada, mas também uma experiência de prazer.

Em outras palavras, a fronteira é cruzada quando o que antes era encenado como brincadeira passa a ser vivido como experiência, ainda que ninguém a nomeie. Não depende necessariamente do ato em si, mas da consciência (mesmo que negada) de que há algo sendo compartilhado ali: desejo, curiosidade, afeto ou simplesmente a vontade de continuar.

Ao analisar todas essas tendências comportamentais, fica perceptível como as novas gerações moldam a sociedade. O que antes soava estranho hoje é naturalizado. Isso só reforça, como propõe Michel Foucault, que a sexualidade não é puramente natural, mas se constrói no cruzamento entre cultura, experiências, afetos, linguagem e contexto social. Como sugere Judith Butler, identidade e desejo não são essências estáveis, mas algo que se constrói e se performa nas interações cotidianas.