Desconfio, com a mesma seriedade de quem compartilha memes sugestivos na madrugada, quando a internet parece silenciosa, que alguns amigos alimentam uma atração latente por mulheres trans. A suspeita não é infundada e ganha força com o comportamento impulsivo de muitos deles, sobretudo quando estamos à vontade e deixamos escapar pistas que desmontam qualquer disfarce.
A minha percepção é a de que eu — cria de Dionísio — admito meus desejos sexuais com menos pudor do que meus amigos heteros. Isso talvez esteja relacionado a fatores socioculturais, históricos e à necessidade de autoafirmação deles, sempre atrelada à heteronormatividade e à preservação de status social.
Mas, para começo de conversa, de onde vem a atração de caras por mulheres trans que, nos últimos anos, parece ter explodido? A resposta não é tão simples, porque a atração é quase sempre multifatorial. Ou seja, envolve aparência, expressão de gênero, fantasia e o contexto cultural no qual estamos inseridos. Não é determinada apenas por um xibiu ou por qualquer categoria rígida.
Ainda assim, na maioria dos casos, arrisco dizer que tem a ver com fantasia e construção cultural. Para ser mais específico, refiro-me à fetichização: quando a atração se concentra na ideia ou no estereótipo de mulheres transexuais, e não na pessoa como sujeito.
Mas como tratar esse assunto tão delicado com meus amigos? Mesmo que não haja nada de errado na atração, o tema envolve identidade, masculinidade, preconceito e medo de julgamento. A forma como conduzir o diálogo fará toda a diferença.
Muitos homens heterossexuais não sentem vergonha da atração em si — eles pegam mulheres trans sem o menor peso na consciência —, mas têm receio do que os amigos vão dizer e de como a sociedade vai reagir. Assim, podemos tocar neste ponto: “Às vezes o problema não é o desejo, é o medo da zoação.” Trazer isso para o papo ajuda a deslocar o foco da “vergonha” para a pressão social.
Talvez a melhor opção seja demonstrar respeito — e não reagir com provocação quando o tema vem à tona. Isso porque alguns de nós ainda se sentem desconfortáveis em assumir essa atração que pulsa sem controle em tantos homens. Evitar tons de deboche ou exposição me parece um bom começo. Se o assunto surgir à mesa do bar, mantenha a naturalidade e dê espaço para que qualquer um deles possa se expressar sem julgamentos ou brincadeiras discriminatórias.
É preciso adotar um olhar de quem vive no século 21 e separar identidade de atração. Um ponto crucial é explicar — ou lembrar — que mulheres trans são mulheres. Além disso, se você sabe que aquele amigo sente essa atração, não transforme isso em debate público com audiência ilimitada. Conversas individuais costumam ser mais produtivas e menos defensivas.
Agora, se o discurso virar objetificação, como curiosidade, fetiche etc., vale a pena puxar para o lado humano: “você gostaria de se relacionar com a pessoa como um todo, ou só como fantasia?”. A ideia não é tentar convencer ninguém a nada, mas abrir uma reflexão amistosa entre bons amigos. Às vezes basta plantar a ideia de que desejo não precisa ser motivo de vergonha. A masculinidade não precisa ser frágil.
Agora, se o discurso passar para a objetificação — curiosidade invasiva, fetiche etc. — vale a pena puxar para o lado humano: “Você gostaria de se relacionar com a pessoa como um todo ou apenas com a fantasia?”. A ideia não é tentar convencer ninguém de nada, mas abrir uma reflexão amistosa entre bons amigos. Às vezes basta plantar a ideia de que o desejo não precisa ser motivo de vergonha ─ e a masculinidade não precisa ser frágil.
