A juventude é, das mais variadas formas, o nosso último grito pulsante na vida. Parece exagero, mas quem já viveu os vinte e poucos anos sabe que essa época intensa e cintilante é um caos para quem está fadado a sentir tesão sem limites — muitas vezes aleatório, seja no ônibus, seja ao lado de alguém que nos deixa sufocados de desejo.

Eu mal havia completado 19 anos e já vislumbrava o começo do meu futuro. A trilha de fundo era o eco dos diversos fetiches que surgiam descontrolados e sem pudor, guiados por inspirações absurdas, às portas trancadas do quarto ou no banho, quando não vinham acompanhados da pornografia mais realista e inalcançável aos meus tatos.

O início da fase adulta ruma para uma profusão de sentimentos e emoções, quando tentamos nos libertar das dores incômodas da adolescência, mas comemos de garfada um prato cujo ingrediente principal é a disposição para ser jovem. Vivemos, então, com pressa, na tentativa de aproveitar tudo o que há para ser vivido em um curtíssimo intervalo que durará menos de uma década. Isso porque, depois da juventude, vislumbramos apenas uma nuvem nebulosa, pairando quase sem luz — e recusamos acreditar que esse seja o destino que nos aguarda em um futuro próximo.

O sexo, nesse momento da vida, combina euforia abstrata e desejos difusos por pessoas que não escolhemos necessariamente, mas que estão presentes na nossa rotina, ainda que virtualmente — como na tentação de reagir a um story no Instagram ou arriscar engatar uma conversa mais densa no direct. Percebemos que ninguém precisa conhecer o outro a fundo para desejar devorá-lo sem grandes motivos.

Essa sinfonia desafinada é orquestrada por hormônios em ebulição, que transformam nosso corpo em uma máquina incansável de repetir rituais orgásticos. Um volume inconveniente na bermuda ou uma vontade incessante de cair de boca em alguém. Quando acreditamos ter nos livrado do desejo, ele volta, repetidas vezes, revelando que somos apenas jovens com uma libido incontrolável.

É quase irônico que a masturbação, nessa fase, tenha se tornado caricata como coisa de adolescente, quando nós, recém-adultos, ainda não conseguimos nos livrar dela com facilidade. Apelamos a ela em momentos de crise de abstinência sexual ou mesmo em cenários mais críticos, nos quais precisamos aliviar a tensão provocada pelo tesão espontâneo que nos perseguirá até deixarmos de ser jovens compulsivos por sexo. O mais curioso é que é inegável o quanto isso é natural à espécie humana.

O fato de sermos inexperientes e ávidos por sexo — e por outros prazeres da descoberta — contribui para um contexto que supervaloriza a juventude em meio a novas trajetórias, drogas leves e confusão intensa. O sexo aleatório com quem antes considerávamos a última opção se torna uma alternativa viável e desesperada por prazer. Além disso, o sexo “no pelo” vira artigo de luxo para quem dispõe de um contatinho de confiança disponível no WhatsApp.

Essa etapa da vida captura o sentimento de uma geração que viaja no imediatismo e não se preocupa em refletir sobre seu lugar em um futuro ainda desconhecido. A busca por sexo se transforma em uma mistura de euforia, liberdade, depressão e restrições causadas por inseguranças bobas que vêm junto com a transição da adolescência para a maioridade. Mas, ainda assim, já conseguimos lidar com algumas frustrações leves, como aceitar com certa tranquilidade o fato de que aquela garota incrível, que sempre nos atraiu como um projeto romântico, prefere as líderes de torcida a nós, meros jogadores.

Ninguém sabe ao certo quando vivemos essa espécie de diagnose biopsicossocial, mas suspeito que seja entre os 17 e os 24 anos, quando ainda somos imaturos demais, inconsequentes demais, ardentes demais e simplesmente queremos experimentar o que é viver — ainda que isso signifique descobrir que a nossa dupla lendária do jiu-jitsu se tornou interessante a ponto de transformar admiração em atração quase fatal. Não há como controlar isso, por mais que sejamos vacinados e oficialmente adultos.

A vida aos vinte e poucos anos é uma dimensão pantanosa que nos permite vivenciar novas experiências sem encará-las como algo de outro mundo, como se envolver com alguém do mesmo sexo ou se tornar adepto de uma prática sexual incomum. Tudo, agora, parece mais banal do que memes na internet ou piadas prontas.



De qualquer forma, nos refugiamos em trends e hits para nos autoafirmarmos e tentarmos nos entender, mesmo que estejamos largados no sofá de casa. Até suspeitamos que a vida é deliciosamente delicada e preciosa, mas ainda nos sentimos jovens demais para sermos plenamente independentes. Não é apenas a necessidade de nos autoafirmar a qualquer custo para quem nos cerca; é o instinto gritando para sermos quem sempre sonhamos ser. E essa vontade bate forte — vazando por todos os cantos da nossa existência o desejo de atritar nossa pele na de alguém por quem sentimos algo intenso e, então, ir além: sentir cheiros, sabores e fazer parte um do outro.

Ensaiamos, com frequência, o que dizer a quem desejamos muito — até que isso se torne um refrão clichê da nossa própria identidade. As loucuras que cometemos por sexo sempre revelam uma coragem ingênua, repleta de adrenalina. No fundo, estamos apenas cometendo um ato empolgante e imprudente; hesitamos, mas acabamos cedendo em nome do prazer. Ui! Ui! Ui! Se soubéssemos que podíamos mais, talvez tivéssemos arriscado com aquele primo distante, a colega de sala, o amigo das brincadeiras gostosas ou até com a vizinha. É quando percebemos que a virgindade não faz tanto sentido, embora entendamos que perdê-la de qualquer maneira também pode ser uma tolice difícil de perdoar.

A visão que temos da vida antes dos vinte e poucos tem uma pegada psicodélica e parece vir de uma perspectiva mais excêntrica, soando deliberadamente caótica. Talvez esse sentimento entregue muito de nós: a irresponsabilidade cedendo espaço a desejos que agora conseguimos materializar; nós finalmente passamos a valorizar — e assumir? — os fetiches que nos perseguem há anos. Por mais que ainda lhes falte refinamento, eles vieram para ficar.

A juventude é o tipo de fase que se observa tarde da noite, em repeat, sensível e carregada de emoções. O sexo não destoa desses momentos mais emotivos; ele, na verdade, nos complementa. É sobre deixar rolar, mergulhar de cabeça em todas as experiências que surgirem e que reverberarão no futuro, quando tudo isso se tornará memória — ou aquilo que fomos.