Com texto de Tia Helô

Como um romance publicado em 1847 — sombrio e absolutamente fora da curva para sua época — levou a jovem Kate Bush, então com apenas 19 anos, à posição de primeira cantora inglesa no topo das paradas por quatro semanas, em 1978, com uma composição autoral?

Ao que parece, Kate Bush buscou inspiração em uma história em que o amor não redime — corrói. Wuthering Heights, canção homônima ao romance O Morro dos Ventos Uivantes, escrito por Emily Brontë, é, para mim, uma adaptação direta do livro em forma de música.

A letra da canção, escrita em poucas horas, não agradou aos empresários. No entanto, após insistência de Kate, a faixa foi gravada e, ao ser lançada, alcançou o sucesso que conhecemos hoje. Performática, ela criou a coreografia especialmente para o clipe de Wuthering Heights e se revelou uma artista que adora dançar e fazer caras e bocas — e o resultado da proposta audiovisual não me deixa mentir.

Na obra literária, que se tornou ícone da cultura pop ocidental no século 20, Brontë rompe com as idealizações do amor romântico e traz à tona valores morais cáusticos, à sombra da controversa natureza humana, em que paixão e violência caminham juntas. Talvez por isso a canção descreva o momento em que Heathcliff vê e fala com o fantasma de Cathy, incorporando diversas falas dela retiradas diretamente do livro.

Para quem ainda não leu o romance, Heathcliff é descrito como alguém de pele escura, aparência rústica e olhar fechado, sombrio. Já Cathy é viva, enérgica, de gestos intensos, olhar brilhante, quase febril, e de uma beleza ligada à força e à vitalidade, não à delicadeza.

Assim, Cathy é uma jovem sempre sujeita a interpretações divergentes e acaba se casando com Edgar, o vizinho, em razão de sua ascensão social. Heathcliff, ainda pobre, vai embora de Yorkshire onde mora, mas retorna mais envolvente e rico, e Cathy se vê atraída pelos dois. Heathcliff a força a escolher, mas ela não suporta a pressão e adoece. Cathy morre no meio da história, ao dar à luz sua filha com Edgar.

Depois de planejar por mais de vinte anos uma vingança contra todos os que o afastaram de Cathy, Heathcliff passa a ver o fantasma de Cathy. É nesse momento que Kate liberta sua criatividade e impõe sua interpretação do romance.

A canção retrata Cathy falando com Heathcliff em um instante que parecia ser apenas um detalhe, mas que ganhou o espírito da música: Kate Bush ousa cantar em falsete agudo, numa tentativa de traduzir a aura fantasmagórica e a personalidade da personagem.

Out on the wiley, windy moors

We'd roll and fall in green

You had a temper like my jelousy

Too hot, too greedy

How could you leave me

When I needed to possess you

I hated you, I loved you too

A história se passa nos moors, a vegetação do norte da Inglaterra — aqueles morros verdinhos, com muros de pedra e muito vento (uivante). Cathy e Heathcliff, quando crianças e adolescentes, corriam e rolavam na relva dos moors. Cathy assume seu ciúme, mas joga a culpa em Heathcliff, comparando seu comportamento ao temperamento dele: ardente demais, ganancioso demais.

Bad dreams in the night

They told me I was going to lose the fight

Leave behind my wuthering, wuthering 

Wuthering Heights

Ui, ui, ui! Ela quer saber por que ele a deixou justo quando ela precisava possuí-lo. Amor e ódio. Essa é a ambígua Cathy.

Heathcliff

It's me, Cathy, I've come home

I'm so cold, let me in-a-your window

Lockwood, inquilino de uma das casas de Heathcliff, passa a noite em Wuthering Heights e, no meio da madrugada, escuta um barulho na janela. Ele acha que é um galho, mas, quando vai afastar a planta, uma mão pequena e gelada o agarra e diz: “I'm Catherine Linton. I'm come home, I've lost my way on the moor. Let me in.” (isso depois de vinte anos da morte de Cathy). Heathcliff enlouquece ao descobrir que o fantasma de Cathy falou com Lockwood.

No fim do livro, Heathcliff passa os dias trancado no quarto, falando sozinho (ou com um fantasma, segundo Nelly). Mesmo que o episódio tenha acontecido com Lockwood, foi uma ótima sacada de Kate Bush transformar esse momento no refrão, com Cathy chamando Heathcliff.

Oh it gets dark, it gets lonely

On the other side from you

I pine a lot, I find a lot

Falls through without you

I'm coming back love, cruel Heathcliff

My one dream, my only master

E com isso Cathy sofre (quem mandou escolher Edgar?). É escuro e solitário longe de Heathcliff; ela se consome, e a sorte se esgota sem ele. “Olha, Heathcliff, seu bruto, estou voltando — meu amor, meu sonho, meu único senhor”, alerta.

No livro, ela realmente chama Heathcliff de cruel, talvez em uma tentativa de camuflar seu egoísmo. Ele comete algumas maldades, movido pela sede de vingança, mas nenhuma delas é dirigida a Cathy. A única coisa que fez com ela foi permitir-se partir depois de ouvir a conversa na cozinha e, quando voltou, exigir que ela escolhesse entre ele e Edgar.

Too long I roam in the night

I'm coming back to his side to put it right

I'm coming home to wuthering, wuthering

Wuthering Heights

Ela passa vinte anos vagando no limbo e decide voltar para Heathcliff para consertar o que fez de errado. É, Cathy, como fantasma é mais fácil, não é? Então, ela volta para casa: Wuthering Heights.

Heathcliff

It's me, Cathy, I've come home

I'm so cold, let me in-a-your window

Mais uma vez, o refrão: Cathy-fantasma pedindo que Heathcliff abra a janela, pois está com frio.

Let me have it, let me grab your soul away

Let me have it, let me grab your soul away

You know it's me Cathy 

No fim, depois de passar dias trancado no quarto, com a janela aberta, sem comer e falando sozinho (ou não), Heathcliff morre. Quem encontra o corpo, encharcado pela chuva que entrou pela janela, é Nelly, que o descreve com um olhar radiante e um sorriso que parecia zombar. Na música, Cathy pede a Heathcliff que a possua e leve sua alma. E conseguiu.