Escrever sobre o universo de Manoel Carlos, que nos deixou em janeiro deste ano, aos 92 anos, é como revirar meu baú de fotos antigas e constatar que os meus verões, no início dos anos 2000, serviriam perfeitamente de inspiração para os roteiros de novelas escritos por Maneco — e, ao mesmo tempo, deparar-me com a passagem sutil e implacável do tempo.
Maneco criou uma estética capaz de tocar fundo em quem sempre sonhou viver o Rio de suas novelas. Uma caminhada no Leblon, o trânsito como plano de fundo e as manhãs ensolaradas que confirmavam privilégios formavam o cenário ideal do Maneco Way of Life. Elementos como a trilha sonora, ao fundo, com uma bossa nova discreta, organizavam o ambiente — e o verdadeiro conflito era existencial, quando o sol já estava alto e a vida, inevitavelmente, pedia mais do que contemplação.
A crônica desta semana mergulha na cosmologia maneciana e mostra como ela nos ensina que o passado não some — ecoa em nós. Só notamos a vida quando ela já virou memória, e aquilo que existiu, visto pelas lentes da emoção, ganha um brilho que talvez já estivesse ali enquanto era vivido.
Um abraço!
Will Assunção
