“Eu precisava de uma moeda, então abri um perfil no OnlyFans porque dinheiro não dá em árvore.” A pedrada veio de um jovem de 19 anos, desesperado para garantir o fim de semana e pagar algumas contas que não batiam com o orçamento do mês.

Ele admite que nunca havia vendido conteúdo +18 na internet até então. Mas não precisei ir longe para perceber uma ponta aguda do seu ego se manifestar naquele instante. Enquanto falava comigo, virava o oitavo copo de cerveja.

Modéstia às favas, eu consigo ler o comportamento masculino como poucas pessoas que se dedicam a estudar o inconsciente dos homens. A psicanálise sempre foi minha fiel companheira durante as conversas, e era inevitável não analisar cada palavra ou gesto materializado diante de mim.

“Grana, ele quer grana. Mas quem não quer?”, pensei, enquanto percebia que aquele papo descontraído me renderia uma crônica. Ele confiava em mim, e eu o via como alguém que, embora desejasse dinheiro fácil, também gostava da atenção das mulheres — e da audiência frutífera de outros públicos.

Antes de virar de uma vez meu cosmopolitan, perguntei diretamente quanto ele esperava lucrar com um perfil secreto, no qual venderia fotos sensuais do corpo — e talvez nudes feitos no banheiro de casa. “Meu parceiro, o que entrar na conta pra mim é lucro”, largou, sem tensionar sequer um músculo do rosto, como quem estivesse plenamente à vontade com a situação.

Ri em seguida, devolvendo com leveza a descontração daquela conversa de mesa de bar. Afinal, aquela era uma forma legítima — e pouco convencional — de ganhar dinheiro.

Depois de mordiscar uma azeitona recheada, ele me perguntou, ainda sorrindo e sem se encabular, o que eu achava de “fazer uma moeda daquele jeito”. Como alguém que repele qualquer ideia que soe preconceituosa, disse que provavelmente ele conseguiria levantar uma grana até o Carnaval. Ambos os lados sairiam ganhando, completei. Mais uma vez, ele riu, arqueando as sobrancelhas.

O Carnaval batia à porta, e ele precisava garantir os quatro dias de festa, o que incluía roupas compradas especialmente para a ocasião, bebidas, abadá para o bloco que escolheu e outros gastos menores, mas indispensáveis para quem pretendia curtir com os amigos uma das melhores épocas do ano para quem é jovem.

“E você, não vai? Cê tem cara de quem gosta da farra.” Olhei para nenhum lugar, toquei de leve o lábio, quase involuntariamente, e comentei que, neste ano, talvez fosse, se encontrasse alguma motivação que tornasse o Carnaval mais atraente. Virei-me para pegar o que havia sobrado na mesa para comer e pensei em dizer que fui forjado nos ditirambos dionisíacos, mas logo desisti. Em vez disso, acrescentei apenas que o Carnaval é uma das melhores festas populares já inventadas. “É onde tudo pode acontecer”, adverti, tentando assustá-lo por pura diversão. Ele sorriu, tentou dizer algo que não saiu; eu ri em seguida, sem pressa de ir embora.

“Agora é sério, vei”, afirmou, tentando reconduzir a conversa às possibilidades de conseguir dinheiro sem se expor demais. Olhei para ele com atenção e, antes que dissesse que realmente precisava daquela grana, contei que aquela conversa, para lá de sincera, valia cada palavra da minha próxima crônica — e que eu nunca, jamais, em hipótese alguma, revelaria seu nome, apenas as suas façanhas.

Ele assentiu com a cabeça, fechando os olhos por alguns segundos enquanto erguia o copo, para me assegurar o quanto acreditava em mim e, justamente por isso, sentia-se tão à vontade para contar tudo — inclusive o fato de ter criado um perfil no OnlyFans, mas ainda não ter tido coragem de publicar nenhum conteúdo.

Peguei o celular do bolso e revelei o resultado da enquete que havia feito com os leitores da assuntasó! no Instagram. “Ei, saca só isso: entre os que votaram, 67% afirmaram nunca ter pensado em criar um perfil no OnlyFans. No entanto, 33% admitiram já ter considerado a ideia ao menos uma vez. Para 50% desses leitores, apesar de nunca terem vendido conteúdo adulto na internet, a ideia não é completamente rejeitada. Já para os outros 50%, não há sequer a menor chance de uma nude ser trocada por um Pix.”

“Eu também votei”, admitiu, empolgado, sem revelar em quais alternativas recaiu sua opinião. “Mas será que dá certo? Tô pensando em me arriscar, sabe?”

“Depende do que você acha que é ‘dar certo’”, devolvi de prontidão, já me preparando para deixar o local com ele. “Vejo em você uma empolgação genuína para ganhar essa grana, acompanhada de um impulso recôndito de se exibir e, com isso, garantir validação e popularidade. Estou certo?” “Não totalmente”, disparou, enquanto caminhávamos de volta para casa.