Um dos romances mais celebrados da literatura brasileira recente pode, afinal, não ser literatura? Uma polêmica entre críticos reacende o debate sobre forma, conteúdo e o que realmente define uma obra literária

Aurora Fornoni Bernardini, professora emérita de Língua e Literatura Russa da Universidade de São Paulo (USP), causou alvoroço ao afirmar, em entrevista à Folha, que a literatura contemporânea empobreceu. O motivo? Ter passado a privilegiar o conteúdo e esquecido a forma. Segundo Bernardini, textos que trocam o significante pelo significado “podem até ser interessantes, mas não são literatura”. Entre os exemplos citados está Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Jabuti.
  • Mas o que exatamente isso quer dizer?
Em termos simples, Bernardini defende que literatura não é apenas o que se diz, mas, sobretudo, como se diz. O conteúdo (amor, política, desigualdade, trauma) importa. Mas não basta. O que transforma um texto em literatura seria o trabalho com a linguagem: o estilo, o ritmo, a sonoridade, as imagens, as ambiguidades, a arquitetura da narrativa. Em outras palavras, o significante. É como comparar um bilhete de amor de um aluno do 9º ano a um poema de Drummond. Ambos falam da mesma coisa. Só um deles transforma palavras em experiência estética.

Por isso, ao afirmar que Torto Arado não apresentaria um estilo particular, Bernardini tocou numa ferida aberta do debate literário atual. Sua crítica não se limita a um livro específico, mas aponta para uma tendência mais ampla: a valorização de obras elogiadas principalmente pelos temas que abordam — sociais, identitários ou políticos —, ainda que explorem pouco as possibilidades formais da linguagem. O aplauso vem mais pela mensagem do que pela escrita.

O resultado, segundo essa visão, é uma literatura que se aproxima do discurso, do testemunho ou do relato — importante, relevante, mas não necessariamente artística. Sem invenção formal, o texto deixa de ser obra literária e passa a funcionar como veículo de ideias. E literatura, nesse sentido clássico, não é só veículo. É objeto estético.

Essa concepção não surgiu do nada. Foi sobretudo a partir do século 18 que a literatura passou a ser entendida como uma forma autônoma de arte verbal. Antes disso, textos eram avaliados principalmente por seu valor moral, religioso ou didático. A virada moderna colocou a forma no centro do jogo. A literatura passou a existir por si mesma — como a música ou a pintura —, guiada pelo deleite estético e pela busca do belo.

Com isso, tornou-se possível distinguir a literatura de outros tipos de escrita, como textos científicos, religiosos ou jornalísticos. A chamada Alta Literatura passou a ser definida como uma arte da linguagem voltada à emoção estética. É esse critério, por exemplo, que permite classificar O Diário de Anne Frank como literatura: não apenas pelo que narra, mas pela forma sensível com que transforma experiência em escrita.

Mais tarde, no século 20, essa ideia ganharia reforço com os formalistas russos e o conceito de estranhamento. A função da arte, segundo eles, é tornar o familiar estranho. Romper a automatização do olhar. Fazer o leitor ver o mundo como se fosse a primeira vez. A literatura não copia o real. Ela o reinventa — às vezes para provocar reflexão, às vezes apenas para causar assombro e prazer estético.
  • É aqui que a polêmica se torna mais interessante
Entre mortos e feridos, o debate deixa uma lição incômoda: nem todo texto é, automaticamente, literário. Para ilustrar, pense na fotografia. Qualquer pessoa é capaz de apertar um botão e capturar uma imagem. Mas fazer fotografia — no sentido artístico — é outra história. Exige escolha, enquadramento, intenção, linguagem.
  • Isso significa que Torto Arado não tem valor literário? 
Não exatamente. Mesmo sem cumprir à risca os critérios clássicos da Alta Literatura, o romance de Itamar Vieira Junior encontra relevância por outros caminhos. Sua força está na potência simbólica e na profundidade humana com que retrata a experiência coletiva do povo negro e rural do Brasil. Ao articular memória, ancestralidade e resistência, o livro recoloca no centro da narrativa sujeitos historicamente silenciados.

Ainda que privilegie o conteúdo em detrimento de uma linguagem formalmente inovadora, Torto Arado cumpre outra função: ampliar quem pode ser visto, ouvido e narrado. Talvez não se encaixe perfeitamente no molde clássico da literatura como arte autônoma da linguagem. Mas ajuda a tensionar esse molde.

No fim das contas, a pergunta permanece aberta. Se literatura é apenas forma, Torto Arado falha. Se literatura também é reinvenção do mundo a partir de novas vozes, talvez esteja — mais uma vez — reescrevendo as regras do jogo.

O que podemos constatar é que seu valor está na potência simbólica e na profundidade humana com que retrata a experiência coletiva, articulando memória, ancestralidade e resistência. Assim, mesmo ao privilegiar o conteúdo em detrimento de uma linguagem formalmente inovadora, Torto Arado ressignifica o papel da literatura contemporânea ao recolocar no centro da narrativa sujeitos historicamente marginalizados, ampliando, talvez, o próprio conceito de literariedade no século 21.